quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Apenas um dia

O dia tava lindo lindo.
Amanheci bem, sem nenhuma dor de cabeça.
Dormi bem e quando acordei, me deu uma vontade enorme de falar com Deus, como se estivesse com saudade.
Tem coisas do trabalho que durante a semana penso, penso, penso e não chego a nenhuma conclusão. Às vezes saio das reuniões com o cliente pensando no que mais poderia fazer, como agir com algumas questões, como organizar algumas idéias... Aí, nesse dia lindo, de noite bem dormida e a cabeça leve e cheia de vontade de pensar em Deus, também consegui organizar alguns pensamentos do trabalho.
Peguei meu celular – que estava na mesinha de cabeceira - e comecei a anotar tudo o que vinha de idéia na minha cabeça. Claro que eu não trataria naquele dia. Fui apenas colocando as idéias como lembretes. Tudo ficaria pra segunda, terça, quarta... se Deus quiser.
Depois, estiquei o braço – mais uma vez à mesinha de cabeceira – e peguei a Bíblia. Saudade do tempo que eu lia capítulos e mais capítulos como quem deseja ansiosamente ver o final de um livro comum. Já se foi o tempo que eu conseguia fazer isso. Ultimamente, o trabalho não tem me permitido esse velho hábito...
Li alguns capítulos da chegada de Paulo em Roma e algumas coisas do Antigo Testamento também, quando Abrãao seguia à Terra Prometida.
Sem muita pressa, fiz minha oração da manhã.
Saí do quarto, tomei café e fiz contato com a amiga Edilene que tinha topado a programação do dia: uma visita ao Salomão.
Marcamos logo após o almoço e seguimos na emoção de eu não ser parada numa blitz pois não encontrei minha Habilitação de jeito nenhum, rs.
Chegando à casinha do Salomão, o encontramos assistindo tv e se alimentando pela sonda. Levantou da cadeira e nos deu um abraço apertado. Lavamos as mãos e começamos nosso papo.
Falamos de coisas urgentes, curiosidades que ele tem, assuntos pendentes e até sobre o terceiro lançamento do livro.
Falamos d vida, compartilhamos coisas nossas e até surgiu um assunto sobre namoro. Salomão reclamou que as pessoas amigas são comprometidas, rs, e começamos uma conversa sobre isso também. Sobre a importância da nossa razão de viver não ser através de pessoas e nem coisas. Apenas Deus.
Vendo - constantemente - aquele menino se levantar para enxugar sangue e secreção que saía do buraco em seu pescoço, fiquei pensando que mesmo que pouco tenha noção, é exatamente isso o que Deus para o Salomão: sua - e totalmente sua - razão de viver. Muito mais do que ele imagina...
Continuando a conversa, Salomão disse que não tinha namorada porque a cara dele era feia. Eu disse que não, que tem muita gente solteira por aí pois o que tem que "bater" é o coração e não a aparência. Ele fez que "sim" com a cabeça como se estivéssemos falando uma coisa fácil de aceitar. Sem qualquer revolta por não ter a metade do rosto e nem perspectiva nem de cura e nem de plástica, ele ouviu nossos comentários com serenidade e seguimos falando do amor de Deus: "Só o amor de Deus nos inspira, Salomão. Só isso nos anima e nos faz viver. A coisa mais importante que podemos sentir na nossa vida, a cada segundo de vida, é sentirmo-nos amados por Deus."
Ele olhava pra nós e, seguindo com serenidade, concordava.
Eu e Edilene, bem no fundo, sabemos que quem mais tem discursos e experiências com Deus é justo o Salomão. Justo aquele guerreiro que nos ouvia.
Como diz o Pe. Pablo, Salomão é um santo entre nós!
Aí, falamos pra ele que tínhamos que ir embora pra missa. Justo aí, ele nos pediu que preparássemos a comida dele que, na verdade, é muito mais difícil do que uma simples comida. Tem que esperar esfriar, bater várias vezes no liquidificador, coar, peneirar, peneirar, peneirar... até chegar no ponto. Olhei pra Edilene. Acho que nos entendemos apenas olhando, pensando a mesma coisa: “vamos confiar em Deus.”
Enquanto a Edilene mexia com o liquidificador, eu lavava a louça e depois, fui ver o cachorrinho que estava tão mal e doente.
Enquanto isso, Salomão começou a procurar um cd que eu não fazia idéia do que era e mal reparei, já que eu estava ajudando o cachorro e a Edilene, peneirando a comida.
Quando dei por mim, ele tinha posto um cd de forró e, com um caderninho nas mãos, escreveu pra mim: "Vamos dançar?"
E eu respondi: “Ah??”
Até perguntei pra ele se ele tinha bebido, rs. Tanto eu quanto a Edilene já era pra estarmos longe dali fazia tempo e estávamos ansiosas por causa da hora e ainda por cima ele queria dançar?!
Disse pra ele que eu tava cuidando do cachorro enquanto a Edilene terminava de peneirar e que a gente tinha ficado com ele até aquela hora.
Ele sentou na cadeira e ficou ouvindo o som mas,não tive coragem de deixá-lo assim.
Fui até ele, pedi desculpas e chamei-o pra dançar.
Ele não quis.
Pedi que ele tentasse entender que estávamos com pressa.
Entender... eu tava pedindo pro Salomão me entender... que absurdo...
Pedi desculpas de novo e chamei-o pra dançar.
Isso durou mais uns 5min pois ele não queria mais, de jeito nenhum, rs.
Até que ele aceitou e não só aceitou como pediu pra Edilene bater fotos nossas dançando.
Rimos, brincamos com os passos errados dele e ficamos zoando pois ele não tirava o pé do chão. Começamos a brincar, falando que dança de Angola é diferente e tal... até a Edilene entrou na dança, rsrs.
Saímos de lá depois de umas 5 músicas, uns 5 abraços bem apertados e com uma paz gigante, sem ao menos olhar no relógio que horas eram.
Chegamos à Dutra e ainda pegamos um engarrafamento que já estamos até acostumadas, por causa de obras que tem nuns trechos dali.
Enquanto estávamos engarrafadas, recebemos um torpedo do Salomão: "Obrigado pelo preparamento da minha janta e asima de td seu e voco lindo amor. Amo vcs. Bjs e uma ecelente semana. "
Chegamos à missa e estávamos só 15min atrasadas! Conseguimos aproveitar muita coisa e o melhor: estávamos ainda mais perto de Deus, como se estivéssemos fechando com chave de ouro aquele dia, enquanto cantávamos:
"...e o vento forte
que me leva pra frente
é o amor de Deus"
Nada que vivemos junto ao Salomão é fácil. Muito pelo contrário, cada vez mais o amamos e cada vez mais é difícil tratar com serenidade essa realidade dele.
Mas vivendo tudo o que pudemos viver com ele nesse dia e ainda cantarmos que "o vento forte que me leva pra frente é o amor de Deus", foi como se Deus respondesse as coisas que vínhamos guardando no coração desde a visita ao Salomão. Como se tudo o que falamos pra ele lá, precisássemos viver profundamente também na nossa vida: que o amor de Deus nos anima, reergue, nos leva pra frente.
O dia foi perfeito, lindo, abençoado por Deus, livre até de perder a missa e de uma apreensão do veículo, já que eu andava sem a minha carteira. ;-)

É claro que eu podia ter ido à praia ou assistido coisas que passam na tv e que um monte de gente me pergunta se eu vi e eu costumo falar que não. É claro que eu também ia gostar de ter ido ao shopping ou resolvido alguma coisa minha pessoal (e não faltam coisas pra resolver!) e até tomado um sorvete, caminhando pela orla. Minha mãe costuma dizer que eu mal vejo o mar. E é verdade.
Mas, dia desses, conversando com minha mãe sobre a Pneumonia que o Salomão pegou e a vontade que eu tava de encontrá-lo logo, confessei: "Mãe, tenho percebido que não sei ser feliz de outro jeito. Acho que eu não seria tão feliz indo à praia, dando voltas no shopping, tomando sorvete... quanto sou feliz quando estou com o Salomão."

terça-feira, 1 de junho de 2010

Uma viagem com o Salomão (de 1 a 3 de Maio de 2009)

Fecho os olhos e ainda vejo aquela cabecinha acompanhando as curvas da estrada. E de pensar que essa viagem quase não aconteceu, por causa de um problema na embreagem do carro (já há alguns bons quilômetros de casa!). Tivemos que acionar o seguro, rebocar o carro e buscar outro carro para seguir viagem.
Tudo se resolveu e, apesar do cansaço e do atraso, resolvemos seguir em frente. Persistir na missão de levar o Salomão para rever uma das pessoas mais especiais da vida dele.
Tivemos que parar em Aparecida para que ele se alimentasse. Não há como ele fazer isso dentro do carro (a sonda precisa ser pendurada num lugar alto). Meu padrasto pendurou num galhinho de árvore. E enquanto o Salomão esperava que todo alimento descesse pela sonda até dentro do corpinho dele, ele sintonizou uma rádio. Mamãe começou a cantar e ele se embalava pra lá e pra cá... É triste não poder vê-lo sorrir. É triste ele não poder se expressar.
Numa noite bem fria da cidade, chegamos, graças a Deus, muito bem ao Seminário onde nos receberia o Pe. Horácio. Ele estava tão feliz que já nos esperava na calçada, ansioso com o reencontro com um rapazinho que ele tinha acompanhado muito de sua história.
Os dois se abraçaram. Uma cena muitíssimo bonita.
Esse carinho se estendeu numa longa conversa que varou a madrugada. Todos na mesa e o Salomão tomando uma vitamina pela sonda pendurada no alto de uma das grandes janelas. Ele sempre participando dos assuntos, através do seu caderninho.
Muito depois, nos despedimos do padre e nos embalamos num quarto aconchegante. É bonito vê-lo sereno, deitado, dormindo. Respirando e transmitindo aquele ar ingênuo, de criança... Um alguém indefeso, frágil... como pode ser tão forte? É muito milagre! Seu rosto todo marcado de inúmeras cirurgias mostra machucados, feridas que faz tempo que voltaram a ser reabertas, voltaram a “estourar” em sua face.
E quando veio a nova manhã, veio também um cheirinho de orvalho e aquele jardim lindo, que a gente mal pôde perceber quando chegamos tão tarde da noite. São essas manhãs que renovam o Salomão. E diante de um cenário tão diferente de tudo o que ele está acostumado, era só desfrutar... havia tantas árvores, tantas flores...! Havia até sinuca, num salão enorme, que fascinou o Salomão. É tão bom saber que ele experimentou momentos novos!
Salomão deixou de lado até o incômodo de andar em público e topou passear num dos parques mais famosos da cidade. Às vezes dói ver a insensibilidade das pessoas quando fitam ele; dói ver que dói nele; dói vê-lo tão diferente em tantas coisas que pra nós é tão normal...
Não era justo comprar um picolé, mascar um chiclete, saborear um chocolate. É bom experimentar a caridade abrindo mão de coisas que podemos viver sem elas, somente por amor a alguém.
Saindo do parque, seguimos para uma missa que o querido Pe. Horácio ia celebrar. Ali, há quilômetros de casa, eu, Salomão e minha família viveríamos um dos momentos mais felizes de toda nossa vida. Na Homilia, quando o padre falava sobre esperança, fé, amor... ele contou a história de vida do Salomão para todas as pessoas que ali estavam. Disse que o Salomão é um grande amigo dele e que lhe ensina muito a respeito de valores que valem a pena ser vividos. Disse que, no dia anterior estava se sentindo triste com alguma coisa e falou ao Salomão pelo msn e o Salomão disse para ele seguir em frente pois “nada é razão para desanimar; tudo tem um propósito; todos temos uma missão. O que devemos fazer é aproveitar as oportunidades para fazer o bem e amar. Amar muito a Deus e ao próximo.” (algumas das palavras lidas pelo padre numa das cartinhas que o Salomão lhe dedicou). FOI EMOCIONANTE DEMAIS.
Todos nós nos emocionamos muito. Muito mesmo. O padre ainda pediu que ficássemos de pé e, agradeceu, em público, por todo nosso carinho e dedicação ao Salomão. Naquele momento eu tive a total certeza de que estávamos no lugar certo, no caminho certo e vivendo a nossa missão no mundo. Para nós, nada sobrepõe a humildade, a coragem, a paciência e a fé do Salomão. Estar com ele e fazer tudo o que está ao nosso alcance é o que nos deixa mais felizes, apesar de toda a sua história de dor, solidão, abandono, doença, marcas expostas. Tivemos a certeza de que não estávamos ali somente para matar a saudade de dois grandes amigos mas sim, que aquele encontro também nos garantia que tínhamos mais um aliado na luta do Salomão. Por certo veremos bem depressa as mãos de Deus agindo através do querido Pe. Horácio.
Nessa noite, antes de irmos dormir, ainda ouvimos, maravilhados, algumas histórias do padre em suas viagens missionárias e seus anos vividos em Angola, só por sua paixão de se doar tanto pelo próximo. Um homem que passou até por minas, correndo risco de vida, nas grandes épocas de guerra naquele país. Também nos divertimos com suas experiências de comida... até rato ele já comeu!
Tudo passou muito rápido... já era a nossa segunda e última noite. Uma noite fria, de novo, e diferente da primeira, o céu estava todinho estrelado. Cheinho de estrelas. Ainda as admiramos, meio às copas das árvores que marcavam nosso campo visual. Nosso coração estava renovado. Brilhando como as estrelas. Tínhamos vivido e presenciado momentos especiais do Salomão com seu amigo Pe. Horácio. Seus conhecimentos, suas amizades, suas lembranças incomuns! Que bonito vê-los com tanta afinidade e sincero amor. Acho até que descobrimos com quem o Salomão aprendeu a ser tão perseverante... =)
No dia seguinte, uma bela manhã nos despediu de volta à casa. Nós, na nossa; ele, no cantinho dele. Parece até que nada mudou, que são as mesmas feridas. Sim... fisicamente, são as mesmas cicatrizes, seu rostinho inchado, sua magreza, sangue notável que por vezes aparece pelo seu rosto. Entretanto, é alguém que cada dia muda, sempre pra melhor. Quanto maior o obstáculo, maior o salto que ele dá.
Conosco, também há uma mudança pessoal: quanto mais dias passamos ao lado dele, mais o nosso coração aprende a se alimentar de valores carregados de bondade, humildade, confiança, amor puro, puro amor, só amor.
Deus abençoe a todos!
Grande beijo!

Toda a minha alegria por mais 1 ano de vida (21 de Janeiro de 2009)

"Chuva de bênçãos pra você!" Foi isso o que ouvi 1 ano atrás, quando um temporal caiu durante o dia inteiro do meu aniversário. E foi exatamente isso que Deus me presenteou em mais esse ano de vida: uma infinidade de dádivas, derramadas com tanto amor e fartura, como aquelas chuvas mais intensas que a gente vê cair.
Foi um ano com desafios e conquistas enormes no trabalho voluntário;
um ano que teve luau, rodízios, danças, violão e muitas risadas com amizades incríveis que Deus me apresentou;
um ano dedicado com muito carinho a famílias carentes e a visitas a hospitais;
um ano cheio de beijos, abraços e sonhos das crianças com câncer;
um ano com a melhor viagem da minha vida, em que tudo deu certo e foi tão bom pra mim;
um ano com novas empreitadas no trabalho (e graças a Deus por eu ter emprego!);
um ano com os mais lindos apóstolos que poderia conviver e aprender dentro do Sonhar Acordado e Regnum Christi;
um ano com o namorado mais sincero, carinhoso, divertido e fiel a Cristo que Deus poderia me dar;
um ano com a família mais linda, mais atenciosa, mais presente, mais companheira, mais amável que existe;
um ano bem mais perto Daquele que me deu a vida!
Agradeço muito a Deus por todos vocês no meu caminho.
Àqueles que magoei, minhas sinceras desculpas!
Àqueles que sempre me ajudam, me apóiam, tem paciência com essa menina estressada e elétrica, rsrsrs, muito obrigada!
O maior agradecimento? Pelos olhos de Deus que sempre estão sobre mim!
O maior presente? Mais um ano de vida junto de Deus e aprendendo a amar o próximo em todas as circunstâncias.
E ao apagar a velinha, meu pedido não será secreto: desejo, de todo coração, me apaixonar cada vez mais por Deus e pela minha missão."Senhor, quando eu tiver fome,
manda-me alguém para eu alimentar.
Quando eu estiver triste,
manda-me alguém para eu consolar.
Quando eu estiver pobre,
manda-me alguém mais pobre do que eu.
Quando eu não tiver tempo,
manda-me alguém para eu escutar.
Quando eu for humilhado,
manda-me alguém para comigo louvar.
Quando eu estiver desanimado,
manda-me alguém para eu encorajar.
Quando eu me sentir incompreendido,
manda-me alguém para eu abraçar.
Quando eu não me sentir
amado,
manda-me alguém para eu
amar."

(Madre Tereza de Calcutá)
Um beijo bem feliz e mais velhinha... ;-)
Deus os abençoem!!!
Com carinho,
Luiza.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Aquele abraço...

Com as pernas bambas, ele parou – meio perto de mim - bem na minha frente, e se esticou. Depois, sentou em cima do isopor.

Seu short largo, caindo, foi esvaziando à medida que punha as mãos nos bolsos e tirava um peso de moedas.

Olhou pro céu, ajeitou o boné. Se assustou com o barulho forte que vinha da água e logo mirou o latão de amendoim torradinho.

Contou as moedas. Uma a uma. Pôs as moedas de volta em seu short que teimava em cair.

A pele bronzeada brilhava no meio de lixos em volta: garrafinhas, canudos, papel laminado e até tampa de garrafa de champanhe.

Ia passando um colega que lhe perguntou: “Hoje vai ser bom?”

- Não... hoje acho que não.

- Ah... amanhã que vai ser melhor, né? tem até aquela de Niterói.

- É... tem razão. Amanhã o ensaio vai ser bem melhor!

E eu que pensava que eles falavam do lucro das moedas... era sobre os ensaios das escolas de samba!

O colega saiu gritando “Ó, O Globo! Ó, o biscoito Globo!”

O senhorzinho foi se levantando também. Deu mais uma olhadinha pro mar, pegou os dois lados do short, deu mais uma puxada, botou o isopor nas costas, tomou o latão de amendoim torrado, estufou o peito, afundou os pés morenos na areia, e seguiu gritando:

“Ó o H2O, o mate, o Guaravita, coca, amendoim...!”

Pouco depois, ouvi uma mulher aos berros, chamando “polícia, polícia!”, correndo atrás de um menino estressado que respondia a ela: “Pô, pára de atrasar a vida dos outros!”

O menino espertalhão acabou largando pela areia a carteira e umas roupas que havia roubado, e fugiu – resmungando – que a moça tinha atrasado a vida dele.

Pois é... tanto o senhorzinho de shorts caindo quanto o menino fugindo, são brasileiros. A diferença de valores, realmente, é a gente que faz.

Rio de sol, caos, pombos e lixo, 16 de janeiro de 2010.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

So-fren-do


...e nada me tira da cabeça que:

se nao fosse o dinheiro;
se nao fossem as guerras;
se nao fossem as pessoas egoístas;
se nao fossem as pessoas preguiçosas;
se nao fossem as pessoas sem palavra;
se nao fosse a política;
se nao fossem os ladrões;
se nao fossem os corruptos;
se nao fosse...
se nao fosse...

nada disso estaria acontecendo.

mas tudo bem...
se nao fosse Deus, nao haveria vida eterna.
que venha a vontade Dele.
e que Ele me dê forças...

em tempo: eu nao sou filha unica!!!!! eu te amo, irmão!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

E salve a igualdade...

"Temos só duas vezes mais genes que os vermes , 60% deles são cópias dos genes de moscas , fungos e bactérias.A diferença genética entre um negro e um branco é menor do que a existente entre dois negros. Isso deita por terra nossa empáfia e nossa pretenção , Uma pancada equivalente à descoberta de Copérnico de que a terra não era o centro do universo, conforme acreditava-se no século dezesseis."
Frei Betto

domingo, 15 de novembro de 2009

Natal (2006)

Dezembro de 2006


E de repente chegou o Natal.
Já passou tudo o que tinha que passar.
Veio aniversário, veio viagem, veio Páscoa, veio transferência da faculdade. Teve emprego velho e também novo. Teve choro, teve dor, teve gargalhada. Muitas vitórias, muitos sustos, muitos sorrisos e muitas saudades. Muito sono, muito estudo, muitas provas, muitas fotos. Muito som e muito silêncio. Muita gente, muito bolo, muitos abraços. Muita chegada e muita partida. Pouco telefone, pouco sobrenome, pouco tempo e muita ternura. Muita trilha e pouca lua. Poucas compras, muita gordura, pouca TV e muita pintura.
Todos os passos e todos os enlaços que retorcem as diretrizes das calçadas.
Todas as buzinas e as muitas gasolinas que consomem o colorido do Natal.
Toda pressa, todo o projeto e todas as benfeitorias no papel.
Acorda-se correndo, compra-se correndo e saboreia-se as nuvens de aluguel.
As muitas notas, as muitas cotas e a estrela que mal brilhou.
Estão todos emancipados, todos encurralados entre o verde-escuro e a glória da caridade.
Tem de tudo: promoção de beijos, gincanas de perdão, pingos de alegria e sorrisos por compaixão.
Há um que se perde meio tamanha manifestação e mal se lembra se é janeiro ou se é verão.
Tudo se agita: gorro, árvores, sacolas e filhos da escravidão.
Nada se reconstrói: são as cinzas em vão, as palmas da mão e as notícias da televisão.
Estamos todos aglomerados: os educados unidos aos sem coração. Os marajás e os que não tem pedaço de pão.
Aos poucos, engole-se a saliva, os sinos, as abelhas e a contra-mão.
Perdemos o redondo, perdemos o degrau e esculpimos a descomposta nação.
Alcançamos o telhado, alcançamos o tom aguado, muito brilho e nenhuma retidão.
Já se foram as bicicletas, já se foram as petecas e os piques em frente de casa.
Estão todos colados: o fiel indigente ao narciso de estimação.
Vamos todos na mesma correnteza: sabonete, mamão, uma prenda e a escuridão.
Desconhecemos o lodo, extraímos do poço um pouco do branco e as esferas da coleção.
Desfigura a história, e alguém cospe na memória, enquanto tudo esvai-se e derrama pelos ouvidos, pela areia, pela aurora e pelo tufão.
Somos todos filhos. Somos todos pais. Alguéns sem retirantes e repletos de atrofiados diamantes.
Um dia, sem que ninguém perceba, tudo acaba. Sua gravata vira nada. Sua postura vira nada. Sua formosura vira nada.
Você é apenas mais um, no meio de toda espécie empipocada.
É quando você abre os olhos e nota tudo que se evapora.
Já se foram os livros, já se foram as fotografias. Se foram os brincos, os cintos, os telefones e as cobranças.
Você perdeu a agenda, a encomenda, o feijão, os CDs e as máquinas de toda ocasião.
Acabaram os desfiles, as vitrines, a carteira e o mercado.
Já voaram os bonecos, os patins, as raquetes, o vinho e o carrinho de mão.
O nada também é o carro, o bombom, o porta-retrato, as panelas e as chaves do portão.
Está apenas o branco, o violino, o sorriso e a unção.
Não é mais importante se tem árvore ou cheiro de capim-limão.
Estamos apenas eu e Ele.
Ouço a paz, as promessas e a devoção.
É muita luz, muito amor e muita gratidão.
Sem pesar, eu suplico: quero isso. Quero ver-Te.
Ele me mostra as mãos. Me mostra Sua riqueza, Sua criação e as dádivas espalhadas pelos Seus.
É tudo indefinido e submerso como a pluma da relva que cobre o chão.
E é tudo isso que se faz tão subjetivo, que envolve a minha alma, e cala meu pranto de tempestades e de gritos do sertão.
Tudo aquilo que não se move, mas se modifica. Tudo aquilo que não se vê, mas se crê.
E aí está a essência diária, massacrada por todo fim de ano: eu e o Pai. O Pai, com Seu filho amado.
E um espírito que mais do que santo, se faz milagre dentro de gente. Gente que pode ser simplesmente gente em todos os Natais. Natais que podem proliferar contentamento e fé.
Fé que lava todas as lágrimas e recolhe cada sorriso de todo o dia que brota, concedido pela Fonte da Vida.

Natal (2008)

18 de dezembro de 2008


A gente não tem tempo pra se doar, mas tem tempo pra aproveitar a liquidação das lojas. A gente não tempo pra visitar um doente mas tem tempo pro futebol, pro Fantástico.
Muitas vezes, a gente não tem tempo nem pra família, mas a gente tem reunião, churrasco, barzinho e muita pizza.
A gente não agüenta ver sangue mas se tem acidente na rua, todos querem ver.
A gente não suporta pensar na violência mas adora curtir um filme de suspense, de terror ou de luta.
A gente tem nojo de mendigo mas não tem nojo de pegar a batata frita com as mãos.
A gente tem medo de entrar numa enfermaria mas a gente não tem medo dos brinquedos dos parques de diversão.

O fato é que a gente ama muito a gente.
Quanto mais a gente ama a gente, mais a gente desama o outro.
E isso pode até ser natural agora mas, um dia, em algum momento, a gente se dá conta que tanta indiferença não é normal.
A gente se dá conta de que a "cafonice", a "tolice" de saber enxergar o próximo, alegra muito mais a alma do que uma longa tarde de sono...

Fico imaginando aqueles que viam a Madre Teresa de Calcutá passar e deviam pensar "louca, perdendo o tempo com isso". E hoje, que ela não está mais aqui, todos lembram como uma pessoa que fez a diferença e que sempre teve argumentos sábios porque tudo sempre foi amor. Talvez ela tenha tido uma "vida de gado", como diz a letra da música do Zé Ramalho, mas a letra também diz que essa gente que tem "vida de gado", é "povo feliz".

Então... fico eu vendo a proximidade do Natal e observando tantas contrariedades da gente nesse mundo.
A gente exige tanto de tudo e de todos e pouco pára para, pelo menos, refletir no que tem feito para que muito disso tudo seja muito diferente.

Talvez... talvez essa seja a hora de pensar nas nossas contrariedades e experimentar ser feliz servindo!
Talvez essa seja justamente a hora de deixar de gastar tempo com atitudes que só agradam a gente!
Talvez seja a hora de deixar o individualismo e olhar em volta. Vê! Muito mais sorrisos há em volta. E eles se multiplicam para dentro!!!

É justo o espírito do Natal: desfocar de nós. Focar no Cristo que nasceu, viveu, morreu e só se dá por e em amor.
É essa a verdadeira pérola de poder viver o Natal tal como ele é: um mistério e uma dádiva que alimenta a alma daqueles que experimentam ao menos uma vez, se diminuir para que o amor aumente mais. Aumente em atitudes, alargando o coração e propiciando pequenos e sinceros gestos e palavras, cheios de gratidão, generosidade, honestidade, perdão, alegria pura, pura paz... uma paz que só pode vir Dele: o verbo que se fez carne.
Aquele que justamente por ser o "Deus conosco", é o único que pode dar a paz que homem nenhum pode dar.
Aquele que prometeu a vida em abundância, contanto que vivêssemos Nele.
Aquele que nos faz experimentar o valor da doação e entender que não há como explicar. É só o sentir. O sentir sobrenatural que nos faz livres, contentes e prontos para desejar e viver o amor cada vez mais.
Não há nada que nos faça voltar. Fomos atraídos pela preciosa luz de Cristo e Seu incomparável coração.

Mas talvez... talvez... talvez, pra muitos (e de novo!), essa nem seja a hora ainda...
A qualquer momento o celular pode tocar e pode ser a festa, o bar, o cinema. É o "eu" que volta entrar em ação.
Nessa hora, muita gente pensa então: "Ah... deixa essa história de se doar, para depois...
Deixa que os meninos de rua virem traficantes.
Deixa que os indigentes padeçam (pelo menos não sou que estou padecendo!)...
Deixa que os miseráveis (que se corroem de dor), penem e se desfaleçam. Eles estão sempre aí.
E existe governo pra quê?"

É engraçado... a gente se desdobra pra ganhar uma partida de jogo.
Mas no jogo para ganhar, resgatar, conquistar valores humanos e valores de vida, ninguém anima de andar com a primeira peça.
E acaba ligando a televisão...
E tudo continua como sempre foi.

Uma pena... porque hoje já foi.
O que resta, é o futuro. Sabe-se lá como... pois todo amanhã é a simples conseqüência do que é plantado hoje.

E eu... eu já vou indo enquanto é presente!

Sigo com todo meu amor. E o melhor: amando cada vez mais, graças a Deus!
Porque amar também é saber ter esperança.
E a esperança alimenta a vida. E o amanhã.

Um beijo,
muito amor,
toda minha alegria,
e o melhor Natal do mundo, porque nele há todo sentido da vida!

ENTREVISTA: Voluntários Embratel

Abril de 2006!

Voluntários Embratel - Como você conheceu a Sonhar Acordado?

Luiza Oliveira Belotti -
Essa é muito boa! rsrs... Eu sempre procurei muito por trabalho voluntário com crianças com câncer mas nunca consegui. Participei de muitas palestras no INCA mas quando me chamavam, era para fazer um trabalho em horário comercial, 3 vezes por semana. Aí... ou eu trabalhava ou eu ficava no INCA. Não podia deixar o trabalho e então, continuei na vontade do trabalho voluntário, mas sem saber onde poderia procurar oportunidades para fazê-lo. Um dia eu estava batendo fotos na Vista Chinesa (amo bater fotos de paisagens), um grupo de mulheres mexicanas estava visitando o local e me perguntaram se eu podia bater uma foto delas e enviar por e-mail. Eu disse que sim e no dia que fui mandar as fotos, perguntei por que elas estavam no Rio. Uma delas me respondeu que fazia parte de um trabalho voluntário fundado no México e elas estavam dando uma "força" aqui no Rio. Daí... foi só correr para o abraço! Foi a coisa mais oportuna que poderia me acontecer! Fiquei "muitão" feliz e na mesma hora trocamos telefones para eu ficar bem informada de quando seria a próxima atividade da ONG.

Voluntários Embratel - Como é o trabalho da Ong e qual seu principal objetivo?

Luiza Oliveira Belotti -
O Sonhar Acordado é uma ONG que abrange vários projetos, com diferentes focos. O único ponto comum é que todas as crianças assistidas pela ONG são crianças de baixa renda. Há projeto direcionado a crianças carentes (Amigos Para Sempre); há projeto que busca passar valores e humanização no ambiente em que as crianças vivem (SuperAção); há projeto que busca a formação de pré-adolescentes na área profissional (Preparando Para o Futuro); e há projeto direcionado a crianças com doenças crônicas (Sonhando Juntos).

Voluntários Embratel - Qual é o objetivo do Sonhando Juntos?

Luiza Oliveira Belotti -
O Sonhando Juntos tem como principal objetivo levar esperança, carinho e alegria às crianças que estão doentes ou em fase terminal. O trabalho começou com visitas a um hospital fixo mas esse hospital entrou em obras e os voluntários passaram a exercer as atividades numa Casa de Apoio do Rio de Janeiro. Chama-se Casa de Apoio a Criança com Câncer de Santa Tereza. No momento, as brincadeiras são realizadas com as crianças assistidas por essa Casa.

Voluntários Embratel - Como é sua participação na instituição?

Luiza Oliveira Belotti -
Faço parte do Sonhar Acordado de duas maneiras:

1) Sou coordenadora de Logística da festa de Natal anual da ONG, quando são reunidas as crianças de todos os projetos para uma grande festa com animadores, muitos brinquedos, muitas brincadeiras e muitos presentes. Para essa atividade, sou responsável por "correr atrás" de 1.200 presentes de Natal para todas elas... Para que aconteçam as festas de Natal, voluntários participam de uma reunião, previamente, quando são discutidos valores a serem transmitidos às crianças no dia da festa. Ao longo do evento, o voluntário pode falar sobre "carinho" ou "perdão" ou "amor" etc. São, aproximadamente, 1.200 crianças. Em outubro, todas essas crianças escrevem uma cartinha para o Papai Noel com opção de 3 presentes que elas escolhem de um catálogo que eu elaboro (esse catálogo existe porque tem que haver um limite de valor). As cartinhas são analisadas e distribuídas para os voluntários. Cada voluntário fica com, no máximo, 2 cartinhas e eles precisam tentar conseguir um dos 3 presentes escolhidos pela criança. No dia da festa de Natal, que geralmente acontece num lugar de grande espaço ou boa infra-estrutura, elas brincam, dançam, aprendem valores ao longo do dia e recebem, no final da festa, o tão desejado presente. É bem emocionante...

2) Sou voluntária do projeto Sonhando Juntos, cujo compromisso é quinzenal. Um sábado por mês é realizada uma reunião entre os voluntários e, no sábado seguinte, é realizada a visita às crianças. Como o objetivo do Sonhando Juntos é buscar "captar" um sonho pessoal da criança, a reunião entre os voluntários é primordial para definirmos a atividade que vamos trabalhar no próximo encontro com as crianças para despertar nelas o desejo de falar sobre seu sonho.

Voluntários Embratel - Como surgiu esta idéia de realizar os sonhos das crianças?

Luiza Oliveira Belotti -
Essa idéia de realizar sonhos pessoais foi que deu iniciativa à ONG. Tudo começou quando uma criança que tinha um grande desejo de ser bombeiro e estava com câncer, conseguiu passar um dia inteirinho no Corpo de Bombeiros, vestida como um bombeiro, com crachá de bombeiro e tudo mais. Participou de cada atividade e simulações de incêndio, entre outras coisas... O menino veio a falecer mas, mesmo muito doente, teve muitos grandes momentos de intensa alegria, por ter realizado seu sonho que, aos voluntários, foi possível correr atrás para realizar.

Voluntários Embratel - Quem são as crianças beneficiadas pelo trabalho da Sonhar Acordado?

Luiza Oliveira Belotti -
Crianças de baixa renda carentes (de abrigos da cidade) e crianças de baixa renda com doenças crônicas (de hospitais do Estado).

Voluntários Embratel - Quais são os projetos desenvolvidos pela Ong?

Luiza Oliveira Belotti -
Amigos Para Sempre - os voluntários criam um laço de amizade com as crianças, sempre transmitindo algum valor humano. Além disso, eles fazem atividades culturais com as crianças, tais como idas a museus, teatros, cinemas, etc.

SuperAção - atividades em comunidades, instituições ou colégios, sempre levando valores contribuindo com a humanização do ambiente em que as crianças vivem. Os voluntários trabalham junto a profissionais especializados (educadores, recreadores ou profissionais da área de saúde).

Sonhando Juntos - os voluntários transmitem alegria, esperança e muito carinho e amor a crianças de baixa renda que sofrem de doenças crônicas. Além disso, em cada brincadeira os voluntários tentam "pescar" uma pista do que a criança sonharia em ser ou em ter, para que o sonho seja realizado.

Preparando o Futuro - busca contribuir com a formação de pré-adolescentes tanto no ramo profissional. A orientação acontece através do programa de Aprendizado Mirim, trabalhando para que o pré-adolescente esteja preparado o início da sua vida no mercado de trabalho e na vida.

Voluntários Embratel - O que deve fazer quem quiser ajudar ou participar da Sonhar Acordado?

Luiza Oliveira Belotti -
Além de o voluntário poder escolher o projeto com o qual mais se identifica, também há outras opções:

1) Os voluntários que não podem assumir um compromisso quinzenal com nenhum dos projetos, pode participar de uma festa anual, que se chama Dia do Sonho. Para este evento, são reunidas as crianças de todos os projetos para uma grande festa com animadores, muitos brinquedos e muitas brincadeiras. O último Dia do Sonho aconteceu na Casa de Festas Praticar, dentro do condomínio Rio Mar, na Barra da Tijuca. A área de lazer era imensa, com muitos campos, muito espaço para os brinquedos infláveis, espaço para o palco, muitas árvores e todas as outras infra-estruturas necessárias como banheiros, cozinhas, balcões que ofereciam grande variedade de lanches e etc. Essa festa acontece sempre, no mês de junho. Esse ano vai acontecer no dia 3 de junho, de 09:00 às 15:30.

Além dessa festa anual, também acontece em dezembro, a Festa de Natal. A última aconteceu no Circo Voador. Possui a mesma infra-estrutura e os mesmos objetivos da festa do Dia do Sonho. A diferença é que tem presença de Papai Noel e as crianças ganham o tão esperado presente que escolheram e pediram na cartinha do Papai Noel. É muito emocionante!

2) Outra maneira de o voluntário participar, é fazendo qualquer doação para a ONG. Mesmo com patrocínios de algumas empresas, às vezes falta capital para tamanhas atividades... Para quem quiser ajudar a conta é:
Banco: Banco Itaú
Agência: 0272
Conta: 73427-8


Voluntários Embratel - Qual o principal retorno para quem, como você, se torna um voluntário?

Luiza Oliveira Belotti -
Posso dizer, com um sorriso largo e com a alma mais leve do mundo, que o retorno que os voluntários recebem é inesquecível. A cada valor que a gente transmite para alguma criança, a cada criança que fala um "Obrigado, tia!", a cada criança que abraça apertado ou pergunta por que a gente é feliz, é muita coisa que muda no nosso coração.

A primeira fase é quando a gente deixa de reclamar de muitas coisas que estamos habituados a reclamar e que constatamos, de cara, que é um absurdo resmungar por tão pouco.

A segunda fase é quando a gente passa a valorizar as coisas que menos valorizamos porque são muito comuns e óbvias pra gente: pão quentinho, uma cama confortável, uma família, um carinho, uma atenção, um sorriso, um abraço, um banho quente, poder andar, poder falar, poder enxergar... Por fim, em pouco mais de 1 ano no projeto posso dizer que me sinto completamente diferente (pra melhor!). Hoje eu sei viver o valor do perdão, da paciência e da doação de amor. Se alguém passa por mim e não fala, eu apenas sinto muito ao invés de guardar mágoa ou de maldizer; se alguém grita comigo e perde o controle, eu consigo manter a calma ao invés de responder; se alguém se irrita de tal maneira que xinga o trabalho e reclama que tudo dá errado nas suas atividades eu apenas agradeço a Deus porque aprendi a valorizar ainda mais o meu trabalho e posso entender, claramente, que problemas todos nós temos. A diferença é que muitas vezes damos muita importância pra eles quando, na verdade, há muitos maiores e, com certeza, muito mais graves.

Voluntários Embratel - O que você diria para quem deseja participar, mas ainda não sabe como começar?

Luiza Oliveira Belotti -
O primeiro passo é pensar no próximo. O que eu mais escuto das pessoas é "Não sei se eu agüentaria..."

Eu sou a pessoa mais sensível da minha família e a mais sensível do meu grupo de amigos a ponto de chorar com cena de novela ou se avistar um mendigo na rua. Mas, desde que comecei o trabalho, o meu objetivo era de fazer alguma coisa de bom por alguém. A partir do momento que eu me vejo naquela situação porque estou dando amor a alguém que é carente desse sentimento ou que recebe esse sentimento mas que precisa de mais, eu anulo as minhas fraquezas e me fortaleço para o meu semelhante (digno de carinho e de amor tanto quanto eu). Então... esse é o passo mais difícil mas também, o decisivo! Se as pessoas tiverem a noção do bem que estão fazendo, não há nada que as impeça de assumir esse compromisso! Os horários da agenda são adaptados e até a personalidade às vezes sensível demais, também é moldada.

E o melhor: além das crianças ganharem muito, os voluntários ganham em dobro! É uma grande troca de experiência, de valores, de sentimentos sinceros, de amizade e de uma linda lição de vida!


Viver de verdade!

14 de setembro de 2009


Ela estava ali, sem piscar. Olhos molhados, cabeça balançando, corpo tremendo. E minhas mãos, apertadas pelas suas.
O nome eu não sabia. aliás, não fazia idéia. Pouco importava. Ela clamava - apenas com um olhar - por um socorro.
Medo. Ela tinha muito medo... e quem não teria?
Apertava a minha mão...
Apertava a minha mão... e seguia sem ter coragem.
Depois de correr da sala de exame por 3 vezes, chorando, desde que apertou a minha mão, não deixou mais a sala.
A médica, que não entendia nada, não sabia se me ouvia ou se seguia insistindo com o procedimento.
"abra a boca e deixa eu te dar essa anestesia. A gente precisa fazer a biópsia de qualquer maneira."

Tem palavras que já assustam sem precisar de uma frase inteira: anestesia, biópsia, câncer. Muitas vezes, mesmo que isoladas, essas palavras dizem tudo.

"Lembra de quando você ia ao dentista e precisava levar uma anestesia? Então... é por isso que o gosto não é bom mas vai fazer todo efeito possível..."
E de onde eu tirei essa frase? Eu nem sabia o que ela tinha! E diferente do dentista (que com apenas umas borrifadas a anestesia já fez efeito), aquele spray que estava ali, ela tinha que ser tomado um vidrinho inteiro.

Ela olhava pra mim e olhava pra médica. Parecia que queria entender como eu estava ali, por que eu estava ali e por que eu apertava sua mão.
Entre uma falta de coragem e outra, mal percebi mas não deixei que a médica conversasse muito.
Segui falando: "Confia em Deus, querida. confia muito, de todo o coração. Você vai ver que quando o seu medo for enorme e você não tem o que fazer, só Ele vai ser capaz de te acalmar e te fortalecer."
A médica olhava pra mim e seguia pedindo que a moça abrisse a boca. enquanto isso, me contava que ela tinha 2 filhos pequenos.

- Filhos pequenos? Mas que coisa mais especial ! Então eles vão conhecer uma mãe muito guerreira a partir de hoje! - disse eu.

Ela gaguejou, sem quase conseguir falar, de tanto que tremia: "Eu não quero, não quero..."

E a médica continuou: "Sua família veio de tão longe, só pra te dar uma força. E você não vai ser corajosa?"

- Sua família está aí? É de outra cidade? Que maravilha que você tem uma família que te ama tanto! Faça isso por eles, querida, pois muitas pessoas gostariam de ter uma família num momento desses tão difícil mas não tem...

Ela fechou os olhos. Fez uma oração bem baixinha, sozinha, apertando as minhas mãos.
Eu não fechei os meus mas também fiz a minha minha. E desejei, verdadeiramente, que Deus tivesse misericórdia daquela mulher.

Ela abriu a boca. Depois da anestesia, ainda deu umas cuspidas. Cansada de relutar e percebendo que fugir não era a melhor opção, optou por enfrentar e tentar, mesmo na dor, experimentar os efeitos da fé.

- Luiza?

(alguém me chamava)

- Ah? - respondi, ainda olhando para a mulher.

- É que o Salomão precisa ir em outro médico agora.

- Tá... to indo... - respondi, ainda com as mãos sendo apertadas pela mulher.

Sem conseguir largá-la correndo, para ir para a sala do outro médico que o Salomao precisava ir, ainda perguntei seu nome.

- Ana. - ela disse.

Dei um abraço forte. um abraço numa mulher que nunca mais vou esquecer na minha vida...
Desejei que ela ficasse com Deus e disse: "Ana, vou pedir a Papai do Céu por você, ta?"

...

A manhã tinha começado muito cansativa. Eu tinha trabalhado a semana toda; tinha estudado no dia anterior à noite; tinha corrido atrás do ônibus que parou uns 50m longe do ponto.
Minha sandália tinha agarrado em vários paralelepípedos da rua enquanto eu corria atrás do ônibus; o motorista voou com o ônibus, "tocando o terror" em todas as curvas.
Eu passei um bom pedaço da noite em claro, pois acordei passando mal. Mas mesmo assim, saí cedo para ir com o Salomão ao INCA (tinha me comprometido a isso), antes de pegar no trabalho.
Nessa manhã, caiu um temporal impressionante no Centro do Rio. As ruas já estavam virando rios... e junto com tudo isso, a cabeça a mil: "Preciso fazer tal coisa hoje no trabalho; preciso marcar tal médico... opa! Aqui tem muita água! Será que o carro passa???!!! Hum... e aquele trabalho da faculdade? Consigo fazer no sábado? Ou domingo? Ih! Chegamos! Não... aqui não dá pra parar com o carro... olha o tamanho da poça pra sair daqui... ai..."

Curioso... justamente essa loucura toda só me mostra o quanto sou feliz.
Feliz por andar, por correr atrás do ônibus, por poder comprar outra sandália, por ter trabalho, por estudar, por ter casa, por ter família, por ver chuva e ver sol, por trabalho da faculdade e direito a fim de semana.
Feliz por ter saúde...
Feliz por pedir a Deus, a cada dia que nasce, que eu perceba todas as dádivas que eu receber.
Feliz por desejar me importar em fazer a diferença na vida de alguém. Assim, nenhum dia é igual ao outro... e até as sextas-feiras chuvosas (cansativas da faculdade do dia anterior e apesar de passar mal de madrugada) não são empecilhos para que eu seja feliz.

E a vida é cheia de coisas mesmo... e é maravilhoso viver de verdade!

Páscoa 2009

9 de abril de 2009

“Pois quem põe os seus próprios interesses em primeiro lugar nunca terá a vida verdadeira;

mas quem esquece a si mesmo por minha causa terá a vida verdadeira.”

(Lucas 9, 24)

São gentes. Infinitas.

Cheias de sentimento. Milhões.

Dor. Muita dor. Toda alma chora. Lembra. Sente o que viveu, aflige-se com o que vive e teme o que virá.

Mas Ele está ali. Sim. Há beleza. É todo belo. O mais belo de todos.

Mas não é só beleza. É também milagre.

É a beleza de estar presente justo quando alguns não acreditam que exista. Justo onde ninguém mais espera ou vê motivo para esperar.

Milagre.

A beleza de agir na dor. É por isso que é belo. É por isso que é milagre. Quem mais seria tão humilde? Tão bom? Tão presente? Tão amor?

Mas não é só belo. É também forte, sabendo ser suave; é poderoso, sabendo ser fraco. É sem igual. Como pode? Quem pode?

O belo milagre.

Olho em volta. São lágrimas inundadas de emoção. A emoção acompanhada da infinita paz. Sempre aí: onde tudo só sabe ser bom. Na verdade, magnífico.

Não é que as circunstâncias tenham mudado. Nós mudamos.

Não são os problemas que foram embora. Fomos nós que chegamos. Nós abrimos os olhos. Nós abrimos o peito, rasgamos o coração.

É aí que a cruz fica tão bonita. Afinal, é tudo por amor!

Não há o que temer.

E, mais uma vez, a beleza do milagre.

Abraçar a cruz, cheio de fé, é unir-se ao sacrifício que salva e que é impetuoso de amor.

Não importa o tamanho da cruz. Nem o tempo que vamos carregá-la.

Sim. Nós seguimos. Estamos vivos. Precisamos viver!

Olhos fixos.

Braços firmes.

Pés sólidos.

Peito pleno de esperança.

Porque diante do estorvo está a beleza de aprender a amar lutando;

sonhar na condolência;

preparar-se para a benignidade de ser soberano.

Porque o coração rasgado não vê só a cruz. Ele vê a vitória que vem por detrás dela.

“Porque somos dominados pelo amor que Cristo tem por nós...

Ele morreu por todos para que os que vivem não vivam mais para si mesmos,

mas vivam para aquele que morreu e foi ressuscitado para a salvação deles."

(2 Coríntios 5,14 e15)

Luiza (Feliz).